Wednesday, April 29, 2009

Seres sem nenhum uso

não há seres que não se bifurquem
abrem muitas portas muitas saídas
dividem seus desejos
mas nos cotovelos e nas camas
se quebram em seus ardores
e choram em suas mesas de PAÚRA
vendem por bagatelas suas asas
se lambuzam de mesuras
fazem filhos em suas mentiras
espalham a vastidão das trilhas
colocam no apetite todas as lonjuras
confundem refúgios com direções
e acabam no funil dos mares
assim dois a dois se matam os seres
ou se enganam inutilmente
quase sem nenhum uso
celebram cegos
e se bifurcam de novo
em qualquer labirinto vadio

Talvez um ZIGH aconteça

Não me olhe nos olhos
isso pode provocar um ZIGH
muito louco hipomimético
não queira me ver além das sombras
ou do vulto entre as árvores
posso parecer repentina ventania
coisas paradas no meio da queda
insolúveis engasgadas ou mortas
não sou alguém que procura algo
algo nunca aconteceu
nem me fiz
como queria ter sido feito
não existe algo no meu ego
meu ego está debaixo
de muitas gerações apagadas
hibernando talvez
uma longa permanência
uma mudez indígena
uma dádiva inefável
qual o amor
por isso não me olhe de perto
posso desaparecer num único ZIGH

Saturday, April 18, 2009

Brinde na Floresta Ignota

Brindo a silenciosa nota que não consigo ouvir
a um encontro insólito com um monge em Maracaíbo
Brindo ao alimento de uma orquídea
com sua beleza selvagem e ao seu pólem
que se evola em todos os perfumes
Brindo ao xamânico despertar dos pássaros
a vibrar intenso no cor-de-rosa dos botos
na profundidade do Rio Negro
Brindo ao organismo longevo da tartaruga
à frugalidade do voo das libélulas
à velocidade dos ciclos lunares
em suas ilhas profundas de serenidade
Brindo ao vinho das naus afundadas
a requentar a paixão inesquecível
Brindo a sufocada compaixão
pelas coisas que amanhecem abondonadas
Brindo a minha velha laranjeira
indiferente ao sazão de todas as desventuras
Brindo às crianças livres e mansas
pois nelas estará a faísca vírgem do amanhã
Brindo ao amor que guardo
na manta da minha alma escarlate
Brindo sim brandamente

Tributo a Mário Ferreira Gomes

Cinquenta pedras já pesaram
no alforje de sua caminhada solitária
todos nós temos nosso sanatório íntimo
é um santuário no intocado do nosso ser
nos atiramos num túnel insondável e sem volta
nalgum metrô sobre um labirinto
em suas suas mãos cada pedra
era um poema encantado
que nunca feriu ninguém de verdade
deixou apenas o susto da perplexidade
O surreal poeta nos ensinou
mais do que viver como loucos
a mergulhar nas águas ferruginosas
da esquizofrenia artística
e emergir cada dia de si mesmo
a carregar a trágica grandeza
dos poetas assassinados
com sua figura terna
com os vagabundos e marginalizados
esquelélito Chaplin de pés descalços
a rir destraído da morte
e da estupidez
Vejo-te bem de perto
talvez como ninguém jamais te viu
o mais leal e desprendido amigo
irmãos de Karma na plenitude do infinitude
dos amores e dos dias
vamos vivendo nosso delírio galopante
sobre nossos sonhos e rebeldias
até a grande acrobacia nitente e abissal
Não queiram nos dar uma camisa-de-força
com que sempre se amordaçaram
tudo é imponderável e cruel
nas fisuras do tempo por vir
Precisamos apenas de muito ar puro
paz e poucos nacos de luz e carinho
no picadeiro solidário do planeta

Monday, April 06, 2009

Roteiro nos Andes

Não encontramos uma cidade à mão
para o que queremos viver e sonhar
quando o trem desencarrilha
na rota da cordilheira dos Andes
ninguém sabe mais o resto da fita
tudo começa a ficar picotado
os atores vão ficando embassados
corremos atrás do fim do roteiro
mas o tempo é macabro
a arte de viver perde a delicadeza
temos que sumir no alvoroço
pisando leve
muito leve
assim como quem nasce de novo

Uns dos Outros

Vou rodar o mundo
deixar árvores centenárias
cuidar da minha melancolia balbuciante
talvez algum velho amigo
surja repentinamente
numa dose de sincronicidade
talvez encontre certos casais
com quem dividi alegrias mundanas
talvez estejam mortos
os dias se foram com êles
indigentes párias loucos
monges senis ou felizes
quem sabe o que moveu
plenilúnios?
grande é o mar do esquecimento
durante tão longo exílio
neste vasto país sem memória
esquecemo-nos uns dos outros
queria encontrar
estranhos generosos
sábios vagabundos
altivos transluzentes
homens simples
com êles me banhar nágua limpa
a vida é uma permanente nebulosa
a gerar mandalas de mistério
no inconsciente solitário dos povos
sobram poucas notícias
de parentes e convivas

Wednesday, April 01, 2009

ENGENHO DE DENTRO

Existem sinas semelhantes
nosso mundo explodiu
e não cabemos mais
em nenhum lugar fortuito
estamos na contagem regressiva
acabou a chance de soltar fogos
dar cambalhotas mágicas para o Nirvana
gastamos todas fixas
na ambiguidade dos desejos
não podemos mais
respirar eucaliptos na noite
vagabunda que se esvai
chegou a hora do pesadelo
chegou a negritude do NIGREDO
onde o abismo é só abismo

Essência

A verdade
Não é fincada no chão
ela paira silenciosa
mas está ali
temos que procurá-la
tocá-la
lamber sua essência
enquanto baila
bem junto de nós

Solidão de um Anjo Maldito

Agora não há mais escapatória
tudo é minúsculo qual porcelana chineza
acabaram as conspirações do desejo
a morte colocou sua cadeira na varanda
Quer seguir comigo?
não me mostre sua íntima solidão
nem me convide para festa
de misericórdia dos merecidos
sou hoje um pirilampo alquebrado
de tanta luz sem nexo
Que anjos querem ainda me seguir?
vivo em meio a uma peste de gafanhotos
pairo sozinho na ágora sombria
volto-me para roda milenar
posso ver o aceno lépido dos que chegam

Poetas Assassinados 3

Os poetas derramam sangue
na praça pública diante da inocência
do lugarejo sonolento
parecem faquires a se imolarem
num sacrifício sem causa
Toda poesia do mundo se entrega
ao jogo dos desgraçados e malditos
baixemos os olhos para fome
na boca de tantos desesperados
somos atores a fingir
que somos felizes
a pequenez do outro
com sua paixão inútil nos apodrece
tanta energia atirada no lixo
As noites enterram as tragédias
e os imbecis vão com elas
poetas assassinados pela banalidade
pois seremos juízes ou réus
do tempo e da história que fizermos

O Espectro de Hamelet

Hamelet odiava a tudo e a todos
no emaranhado escuro de sua mente
todos eram usurpadores do sentido de sua vida
restava apenas a teia insana de sua paranóia
Naquela noite o fantasma de seu pai
caminhava pelas ruas daquele lugar
era insuportável a alegria acesa
nos olhos dos homens
era necessário criar um alvo
para pisoteá-lo e humilhá-lo no chão
destruir toda lucidez e poesia
trair e cobiçar o que o outro
desfruta e ama
é preciso aniquilar o outro
arrancar dele todo resquício de paz
mas Hamelet esquece
que esta vida é breve e tirana
todos nós passaremos pela roda Kármica
e que a maldição que criamos
voltará sobre nós todos os dias
que vivermos até o eterno retorno