Saturday, May 16, 2009

Réstia

Abri uma réstia do dia
senti um gosto de guarda-chuva molhado
escondí sob os lençóis
minha coleção de ossos velhos
minha última aventura
foi mergulhar à noite no Rio Negro
onde os mosquitos eram embriagados
com o álcool que havia no meu sangue
estava melancólico até a medula
paralizado feito sanguessuga
sobre qualquer lembrança
natimorto nas resinas
de um beijo mortal da floresta
com sua placenta láctea
e solitária
onde ainda se pode viver
tão perto e tão longe
dos entes amados e inanimados
vivos apenas pelo música e o pranto
no tecido flácido dessa noite sem rumo
cometa desgovernado
no outono de nossas sombras

Bufões

Vamos enlouquecer felizes
já que ficamos bufões e inúteis
já tivemos um tugúrio longínquo
a penúria da ira de todo opróbio
depois veio a bulimia dos desesperados
o adormecimento dos tristes
e uma chuva sem fim
se pudessemos abençoar
todas as paixões perdidas
as coisas que não amanhecem
trezentas horas de riso sem cinismo
qualquer maratona de viver
sem nenhum amanhã
atinaríamos
para uma intuição silenciosa
longe do furor das entranhas
próximo dos ninhos ocultos
onde poderíamos tocar o amor
de olhos fechados para o ego
sem ficar esquizóide
pela posse do outro
a loucura de Ulisses
também fez dele um sábio

Monday, May 11, 2009

A vastidão do espírito

Quero muito acreditar
que é esse o fio que devo seguir
há muitas cores e malhas
num vasto tecido sempre renovado
desdobrado milimetricamente
a cada vastidão do ínfimo
como se amarram os nós?
ou um fio saber de outro fio
na cósmica membrana?
a totalidade da meada
é uma árvore de frutos invisíveis
para o espírito sedento

Thursday, May 07, 2009

Ancestrais

Vou seguindo outros ancestrais
uma tênue linha que costura
anônimas paisagens
rostos desenhados nas cinzas
linhagens juntas na artimanha da vida
sou eu mesmo?
essa sombra genômica
a tocar seus sapatos
pela estrada toda manhã?