Friday, March 20, 2009

Boneca de Porcelana

Te vejo rodar tonta numa pirueta
sobre teus chinelos esfarrapados
teus olhos se fecham
numa última carícia ao mundo
Não suporto verte muda
branca de pó de arroz e pranto
a tua luz é a minha luz
não me deixes mergulhar sozinho
no oceano do impensável
minha boneca de porcelana

POETAS ASSASSINADOS 2

O que se perpetra à revelia
dos grandes mantras nos secretos mosteiros
há recônditos santificados que foram destruidos
há quânticas regressões a tchien tzá
há uma fenda aberta por onde desencarnam
os protetores do planeta
o macabro palpita submerso
os caminhões da morte saem das sombras
com milhões de refugiados
atirados no fogo dos bueiros
Poetas são assassinados
essa é a trilha de sangue dos trucidados
num genocídio de crianças
esmagadas pelo abondono e a exclusão
O que assassina os poetas?
é a linha macabra
do mercado de armas
que dissemina a epidemia fraticida
O que assassina os poetas?
a indiferença e a cobiça
do capitalismo decrépito
O que assasina os poetas?
é desespero inútil
dos jovens que explodem
na estupidez das guerras
O que assassina os poetas?
é a entrega insana a materialidade
das cifras das elites
O que assassina os poetas?
é a destruição sumária do planeta terra
sem preservar e gerir a vida plena e livre
sob a grandeza do universo.

Tuesday, March 10, 2009

Amigos

os amigos cospem nos meus poemas
expulsam-me da mesa com meu tédio
ignoram o elixir que ofereço
com raízes profundas da floresta
o pacto que lhe peço
é jogarem o sangue podre
que corre em suas veias
na cara do mundo
depois disso
poderemos subir aratak
e voar com os peixes
nas correntezas limpas
das paixões infinitas

idiotas

quem define o perfil do idiota
a lama onde dorme
e se suicida entre folhas
o sangue dos poetas
em suas mãos sujas
a máscara de um piolho
sem nenhuma emoção pubiana?
quem cantará
misericórdia na festa dos anjos?
apenas mais um dia para viver
enquanto os gatos
enterram seus dejetos

Cenas de um filme.

Sinais da falência lenta
de cada osso ou SOS
atirados para o auto
numa cena de kubríck
num cinema antigo
tudo é tangência
na mente turva
papel de seda
visão perfurada
da colméia
sem habitantes.

Wednesday, March 04, 2009

Colecionador de Abismos

Acredito que continuo descendo
até as milimétricas fendas
de cada impulso ou pensamento
volteando pelas incostas
do ilógico e do inominável
vou em busca do maior
de todos os abismos
e sei que além dele
haverão outros
com mais labirintos
quantos universos possa existir
não quero visões
é impossível imaginar
a dimensão da consciência humana
quando eu morrer
no fim de um circulo espiral
haverá alguém ou algum ser pensante
para continuar a descer
o abismo inconcebível.

Ìcones

Os esquizofrênicos também se amam
plenamente sob a luz do descompaço
ou nas sombras mansas da noite
podem caminhar distâncias
de infinitos martírios
só para voltarem ao útero
dos seus ícones amados
por serem eternamente intensos
pulsam com seus sonhos
em cada momento da vida
e do inexplicado.

Poetas

quando banho meus olhos
os poemas de Tagore, Kipling
e Krisnamurti
ouço soar o vento manso
que envolve o sol
em cada fim de tarde
venham conhecer
os sonhos boreais!
onde o inconsciente
emerge em sua nudez
de poeta
a reinventar todas as formas
verdadeiras do amor!

Debaixo de uma ducha fria.

Todos os dias
debaixo de uma ducha fria
escovo meus pesadelos
minhas rugas e estrias
calculo minha dor
pelos fios de cabelos
que vou perdendo
não há remédio
apenas vou vivendo
apostando em magras loterias
esfregando meu sexo
no teu cheiro nas paredes
o que pode ter mais nexo?
não importa tanta sede
tudo começa debaixo
de uma chuva fria
onde lavo meus sapatos
ensaio minhas fantasias
de olhos assustados
sem nenhuma poesia.

Tuesday, March 03, 2009

Trapaça

Preparar novamente o caminho de volta
devorar as paúras no umbigo
o amor trapaçará
comigo todas as vezes em qualquer rota
os últimos tolténs já ruiram
a lua me despedaçará
com sua intensidade cristalina