Saturday, August 30, 2008

Grande atriz

a grande atriz
chora com seus grandes olhos
e me faz ver dentro deles
as ruas do mundo
por onde se pode andar
sem querer ser feliz
por que querer tanto o amor
- nunca se está pronto para amar -
quando ele é apenas
a permanência sutil
que nos leva ao desconhecido
quero chorar como a grande atriz
para derramar minhas ausências
dentro de um coração muito manso
derreto meus olhos sobre as flores brancas
que alguém esqueceu sob a porta
quero te ouvir
sonhar grande atriz
todos os pássaros pousam na tua mão

Sábado Maionese

pingos da chuva caem
sobre as flores metais da manhã cinzenta
ando manco pela casa cochilando
nos intervalos molhados pela distância
tento escorregar pela alegria que me cerca
imagino-me caindo
pelas cachoeiras das mãos generosas que me abraçam
é um dia para morrer com os olhos abertos
sem ter medo de nenhuma solidão

Thursday, August 28, 2008

Diafragma

Agora estou do outro lado
Com ausência completa de semáforos
O diafragma que me ver abre seu coração
e me mostra um terreno baldio
Onde as árvores e os homens
Nunca morrem
Ficam sempre
Do lado de cá
Só não sei como voltar
Nem onde o amor me espera.

Thursday, August 21, 2008

Humor

Um dia eu perdi o meu humor
e quase morri de sério
será que ainda sinto dor?
e posso me apaixonar?
será que fiquei trilouco
e explodi meus neurônios
diante da morte dos poetas
e a poesia
será que vai querer rir de mim?
um risco qualquer
uma palavra vadia
ah! risco-me
arrisco-me!

Paródia para Fernando Pessoa

São tantas as pessoas interesantes
aquelas que jamais foram réles e banais
jamais deitaram numa calçada qualquer
e beijaram o chão
jamais se embreagaram e dormiram
sobre o vômito
jamais pularam do segundo andar
e nunca quebraram a cara 99 vezes
jamais mentiram ou deram uma de porralouca
jamais quiseram salvar o país
e estão aí navegando sobre um iceberg
mas jamais abandonam suas contas bancárias
nem as almofadas onde sentam seus bundões
talvez sejam felizes
ou talvez estejam mortos.

Sunday, August 17, 2008

Cidade

Quero rever uma cidade soterrada na memória
uma Pompéia sob o Vesúvio
amantes sob o último suspiro
não sei para quê
talvez para rever a mim mesmo
numa viagem sempre ao mesmo porto
ao mesmo mar
sempre morto.

Domingos

Olhos fechados para ouvir música ao longe
uma imagem serena
um rosto oculto pela luz
uma coleção de olhares recortados
mel e lágrimas
vasta cabeleira dos domingos
quem aterra o chão da minha alma?
o vento que passa à toa
pelas entranhas das geleiras.

Saturday, August 09, 2008

Abismos

Um segredo detectado numa planície escura
uma floresta maravilhosa
um jadim de abismos
sucubindo a um raio de sol
não teremos mais amores
o pensamento absoluto
mergulhará nos mares de júpiter
tudo será esquecido
dentro do cataclisma
se tudo for
um pequenino canteiro
do grande mistério cósmico.

Mito

O tempo dorme num anel perdido
um anel que já foi de alguém amado
os dedos se cerram no ardor dos punhos
e ficam agarrados a algum resquício
migalhas perdidas sobre a mesas
tudo se perde
ficam os anéis sem endereço
a procura da primeira minúncia
talvez não brilhe nunca mais.

Pálpebras

O silêncio tem dentes afiados
é invisível sob as pálpebras
mas não deixa de estar sempre alí
alga morta sobre a onda viva
lustre num salão vazio
início de todas as tempestades
último fóton de amor.